Quarta-feira, Dezembro 12, 2007 :::
Desaparecidos Políticos (por Thiago Moreira)
A dónde van los desaparecidos. Busque en el agua y en los matorrales. Y por qué es que se desaparecen. Por qué no todos somos iguales.
(Maná - Desaparecidos)
A derrubada de João Goulart deu inicio a um dos períodos mais duros e vergonhosos de nossa história.
Durante 20 anos os militares, torturaram, mataram, perseguiram, censuraram a imprensa e calaram o povo. Até hoje, poucas indenizações foram pagas e nenhum dos torturadores foi responsável. Existe pouco, ou nenhum esforço da mídia atual para apontar culpados ou homenagear as vítimas.
Não venho aqui condenar aqueles que cometeram esses crimes atrozes. Meu objetivo é prestar uma homenagem sincera a todos àqueles que “desapareceram” nos porões da ditadura simplesmente por seguir seus ideais, por arriscarem a própria pele por justiça e liberdade. Venho mostrar quem são os verdadeiros protagonistas da história brasileira.
Manteremos a memória viva, a fim de que a morte de tantos compatriotas, não tenha sido em vão. E que histórias como essas, nunca mais se repitam, nem aqui, nem em qualquer outro lugar do mundo.
Calcula-se que a repressão tenha matado mais de 300 pessoas. A partir dessa edição, de La Cópula, sempre um texto, entrevista, documento, relato ou algo sobre o assunto.
“Se eu cair e em qualquer lugar do mundo alguém empunhe meu fuzil para continuar minha batalha, então minha morte não foi em vão.” (Che)
Prefácio do Dossiê dos Mortos e Desaparecidos Políticos desde 1964 (por Paulo Evaristo, CARDEAL ARNS Arcebispo SP)
Tocar nos corpos para machucá-los e matar. Tal foi a infeliz, pecaminosa e brutal função de funcionários do Estado em nossa pátria brasileira após o golpe militar de 1964. Tocar nos corpos para destruí-los psicologicamente e humanamente. Tal foi a tarefa ignominiosa de alguns profissionais da Medicina e de grupos militares e paramilitares durante 16 anos em nosso país. Tarefa que acabamos exportando ao Chile, Uruguai e Argentina. Ensinamos outros a destruir e a matar. Lentamente e sem piedade. Sem ética nem humanismo. Macular pessoas e identidades. Perseguir líderes políticos e estudantis. Homens e mulheres, em sua maioria jovens. É destas dores que trata este livro. É desta triste história que nos falam estas páginas marcadas de sangue e dor.
Vejo, com o olhar da fé, nestes que morreram assassinados, também surgir a esperança na ressurreição. Deles e de toda a nossa gente brasileira. Pois, como dizia santamente nosso amigo e mártir, Monsenhor Oscar Arnulfo Romero y Gadamez, Arcebispo assassinado pelas mesmas forças da repressão em El Salvador: “Se me matarem ressuscitarei no povo Salvadorenho.”Sim, para os que crêem e têm fé, a certeza da morte nos entristece, mas a promessa da imortalidade nos consola e reanima. A certeza de que Deus Pai não suporta ver seus filhos amados na cruz, nos confirma a ressurreição como o grande gesto vitorioso diante de todos os poderes da morte, do mal e da mentira. Pois, como diz o Apóstolo Paulo:
"Realmente está escrito: Por tua causa somos entregues à morte todo o dia, fomos tidos em conta de ovelhas destinadas ao matadouro. Mas, em tudo isso vencemos por Aquele que nos amou". (Rm 8,36-37).
Ainda há muito o que fazer para que toda a verdade venha à tona. Ainda há muito que fazer para que nossa juventude jamais se esqueça destes tempos duros e injustos. Ainda há muito por esclarecer para que a verdade nos liberte e para que não tenhamos aquele Brasil nunca mais. Há ainda muito amor e compaixão em nossos corações capazes de vencer toda dor e todo sofrimento que nos infligiram. Existem ainda muitos ombros amigos junto aos familiares dos mortos e desaparecidos que tornaram palpável e possível a esperança. E que afastaram o desânimo e o medo nas horas difíceis.
Ombros largos como os do grande Senador Teotônio Vilela até ombros femininos e corajosos da impecável prefeita Luiza Erundina de Sousa. Ombro de apoio incondicional da nossa Comissão de Justiça e Paz de São Paulo, até o próprio ombro chagado e vitorioso do Cristo, visível em sua Igreja, seus discípulos e seus mártires. Carregando em sua cruz a cruz destes que morreram pela justiça em nossa terra. Carregando nestas cruzes a cruz do próprio Cristo.
Este é um livro de dor. É um memorial de melancolias. Um livro que fere e machuca, mentes e corações. Um livro para fazer pensar e fazer mudar o que deve ainda ser mudado e pensado em favor da vida e da verdade. Um livro dos trinta anos que já se passaram. Mas também um livro que faça a verdade falar, gritar e surgir como o sol em nossa terra. Um livro que traga muita luz e esclarecimento nos anos que virão. Um livro, vários brados, uma certeza verdadeira.
Nunca mais a escuridão e as trevas. Nunca mais ao medo e à ditadura. Nunca mais à exclusão e à tortura. Nunca mais à morte. Um sim à vida!
A Tortura (por Tito Alencar Lima)
(Frei Tito enforcou-se na frança. Sentia-se perseguido pos seus verdugos. Fora um dos muitos enlouquecidos pela tortura. Capitão Albernaz, cumpriu o que prometera: quebrara-o por dentro.)
Trecho do depoimento de Frei Tito de Alencar lima em Batismo de Sangue, ed. Casa Amarela, p. 260.
“Na quinta-feira, três policiais acordaram-me à mesma hora do dia anterior. De estômago vazio, fui para a sala de interrogatórios. Um capitão, cercado por sua equipe, voltou às mesmas perguntas: “Vai ter que falar senão só sai morto daqui!”, gritou. Logo vi que isso não era apenas uma ameaça, era quase uma certeza. Sentaram-me na cadeira-do-dragão, com chapas metálicas e fios, descarregaram choques nas mãos, nos pés, nos ouvidos e na cabeça. Dois fios foram amarrados em minhas mãos, e um na orelha esquerda. A cada descarga, eu estremecia todo, com se o organismo fosse se decompor. Da sessão de choques passaram-me ao pau-de-arara. Mais choques, pauladas no peito e nas pernas, que cada vez mais se curvavam para aliviar a dor. Uma hora depois, com o corpo todo ferido e sangrando, desmaiei. Fui desamarrado e reanimado. Conduziram-me a outra sala, dizendo que passariam a descarga elétrica para 220 volts, a fim de que eu falasse “antes de morrer”. Não chegaram a fazê-lo. Voltaram às perguntas, bateram em minhas mãos com palmatórias. As mãos ficaram roxas e inchadas, a ponto de não poder fechá-las. Novas pauladas. Era impossível saber qual parte do corpo doía mais; tudo parecia massacrado. Mesmo que quisesse, não poderia responder às perguntas: o raciocínio não se ordenava mais, restava apenas o desejo de perder novamente os sentidos. Isso durou até as dez da manhã, quando chegou o capitão Albernaz”
Entrevista (por Bruno Terribas e Enio Lourenço)
Fonte: Revista Caros Amigos (www.carosamigos.com.br)
Fernando Anitelli, idealizador do Projeto "O Teatro Mágico"
Música, circo, teatro e poesia. Há três anos, O Teatro Mágico, trupe de mais de 10 artistas de Osasco, (SP) tem ousado mesclar diversas expressões artísticas em suas apresentações, transformando o palco em um grande sarau. Desta forma, o grupo já vendeu mais de 35 mil unidades de seu primeiro CD: “Entrada Para Raros” – todos produzidos de forma artesanal e vendidos a R$ 5 a unidade. Mas não somente isso é o Teatro Mágico. Para além das experimentações estéticas, o artista performático Fernando Anitelli, idealizador do projeto, explica que O Teatro Mágico também aposta em uma proposta de arte independente, o sonho de “fazer do Brasil um sarau gigante”, procurando formar uma rede que aproxime grupos de diversos pontos do país que produzem manifestações artísticas de forma autônoma. Nesta entrevista, Anitelli também expõe a profunda divergência que o Teatro Mágico tem em relação à indústria fonográfica: “A gente diz: ‘não tem dinheiro para comprar meu CD? Pirateia’! Isto nada mais é do que compartilhar informação, compartilhar cultura”.
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Entre Venezuela e Nadalândia (por Eduardo Galeano)
Fonte: Página/ 12, Buenos Aires, quarta-feira 18 de agosto de 2004.
Tradução: Fernanda Oliveira Matos
Estranho ditador este Hugo Chávez. Masoquista e suicida: criou uma constituição que permite que o povo o deponha e se arriscou para que isso ocorresse em um referendo que a Venezuela realizou pela primeira vez na história universal. Não houve castigo. E esta foi a oitava eleição que Chávez ganhou em cinco anos, com uma transparência que quisera ter Bush para um dia de festa.
Obediente à sua própria constituição, Chávez aceitou o referendo, promovido pela oposição, e pôs seu cargo à disposição do povo: “Decidam vocês”. Até agora, os presidentes interrompiam sua gestão somente por falecimento, quartelada, impeachment ou decisão parlamentar. O referendo inaugurou uma forma inédita de democracia direta. Um acontecimento extraordinário: Quantos presidentes, de qualquer país do mundo, se animariam a fazer isso? E quantos seguiriam sendo presidentes depois de fazê-lo?
Este tirano inventado pelos grandes meios de comunicação, este temível demônio acaba de dar uma tremenda injeção de vitaminas à democracia, que na América Latina, não somente na América Latina, está frágil e precisa de energia. Um mês antes, Carlos Andrés Pérez, anjinho de Deus, democrata adorado pelos meios de comunicação, anunciou um golpe de Estado aos quatro ventos. Este friamente afirmou que “a via violenta” era a única forma possível na Venezuela, e desprezou o referendo “porque não forma parte da idiossincrasia latino-americana”. A idiossincrasia latino-americana, ou seja, nossa preciosa herança: o povo surdo-mudo. Até poucos anos atrás, os venezuelanos freqüentavam a praia quando havia eleições. O voto não era, nem é obrigatório. Contudo o país passou da apatia total ao entusiasmo. A torrente de eleitores, enormes filas esperando ao sol, a pé firme durante horas e horas, transbordou todas as estruturas previstas para a votação. A enxurrada democrática também dificultou a aplicação da prevista tecnologia, último modelo para evitar as fraudes, neste país onde os mortos têm o mau costume de votar e onde alguns vivos votam várias vezes em cada eleição, talvez por culpa do mal de Parkinson. “Aqui não há liberdade de expressão!”, clamam com absoluta liberdade de expressão as telas da televisão, as ondas dos rádios e as páginas dos jornais.
Chávez não fechou nenhuma das bocas que cotidianamente cospem insultos e mentiras. Impunemente ocorre uma guerra química destinada a envenenar a opinião pública. O único canal de televisão censurado na Venezuela, o canal 8, não foi vítima de Chávez senão daqueles que usurparam sua presidência, por um par de dias, no fugaz golpe de estado de 2002. E quando Chávez voltou da prisão, e recuperou a presidência com passeatas de uma imensa multidão, os grandes meios de comunicação venezuelanos não noticiaram a novidade. A televisão privada esteve o dia todo passando filmes de Tom e Jerry. Essa televisão exemplar mereceu o prêmio que o rei da Espanha concede ao melhor jornalismo. O rei recompensou uma filmagem destes dias turbulentos de abril. A filmagem era uma trapaça. Mostrava os selvagens chavistas disparando contra uma inocente manifestação de opositores desarmados. A manifestação não existia como foi mostrado com provas irrefutáveis, mas, se nota que esse detalhe não tinha importância, porque o prêmio não foi retirado. Até ontem, na Venezuela saudita, paraíso do petróleo, o censo reconhecia oficialmente um milhão de analfabetos e havia cinco milhões de venezuelanos sem documentos e sem direitos civis. Estes e muitos outros invisíveis estão dispostos a regressar à Nadalândia, que é o país onde habitam os nadas. Eles conquistaram seu país, que lhes era tão alheio. Este referendo provou, mais uma vez, que ali eles ficam.
Eu também cansei
Medíocre.
Foi a palavra mais vista durante as 14 páginas que li na matéria da revista Caros Amigos de setembro. Na realidade, foi a melhor maneira que a verdadeira elite brasileira (composta por Antonio Abujamra, Otto, Tom Zé, Laerte, entre outros), encontrou pra definir o movimento “Cansei”. Pra ser sincero, acredito que não há nenhum outro adjetivo que se encaixe tão perfeitamente ao grande show de exibicionismo, inventado por meia dúzia de empresários horrorizados e divulgado pela mídia podre como uma manifestação pelos direitos do povo brasileiro. Direitos do povo é uma ova! Até onde eu sei, o povo constrói um país. E até onde eu sei os participantes da manifestação na Praça da Sé, no dia 17 de agosto, não construíram porcaria nenhuma e não fazem nada além de desfrutar de privilégios que, segundo os próprios, foi conquistado com o fruto de seu “trabalho”. Difícil entender a lógica do próprio esforço. Meu pai trabalha a mais de 30 anos, e ainda não usufrui dos mesmos privilégios e eu não me recordo de meu pai ter conseguido o pouco que tem explorando mão de obra barata, como os militantes do cansei. Por um momento, essa demonstração de madames e poodles me assustou, afinal, a extrema direita já se assanhou assim no passado e os resultados não foram nada agradáveis para os brasileiros. Mas depois de ler a origem do movimento, conhecer seus líderes e saber como as manifestações ocorreram, pude compreender o porquê de tanta repetição da palavra “medíocre”. Felizmente a onda não pegou. Se pegasse, com uma mãozinha dos nossos meios de comunicação, talvez em breve estivéssemos em meio a uma nova “Marcha com Deus Pela Família”.
Sem Ordem, haverá Progresso?
::: posted by GISLAINE APARECIDA MADUREIRA at 10:33 PM